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A educação tecnológica e o paradigma emergente

A Educação Tecnológica e o Paradigma Emergente

É no presente que se forma o cidadão do futuro

 

 

A transição de um paradigma em crise para um novo paradigma, intensificada no final do século XX, leva a refletir a respeito de novas abordagens na Educação. É evidente a urgência de se abandonar  práticas pedagógicas, voltadas ao reducionismo e a falta de reflexão do indivíduo e utilizar novas abordagens que rompam com a fragmentação e a divisão do conhecimento e que levem a criticidade, a reflexão, ao envolvimento, a criatividade e, principalmente, a transformação da realidade. Busca-se neste trabalho desde entender o que é Educação Tecnológica, bem como o que é o Paradigma Emergente e as novas maneiras de se aprender e ensinar, através de uma rede formada por diferentes abordagens do conhecimento. Conclui-se que o que importa não é apenas ter acesso à tecnologia, mas principalmente saber utilizar essa tecnologia para a busca e a seleção de informação que permitam a cada pessoa resolver os problemas do cotidiano, compreender e atuar na transformação de seu contexto. Este deve ser o norte da escola do futuro, alinhada com os novos paradigmas da ciência. Ouvimos diferentes vozes que refletem sobre como construir uma educação que tenha como horizonte o ser humano e que possibilite as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias para a construção de um novo mundo. Refletimos sobre a relação entre ciências, tecnologia e sociedade, e como essa relação deve integrar o currículo visando à formação plena do educando, possibilitando  a apropriação de conceitos necessário para a construção do conhecimento para a intervenção consciente na realidade. Dada a urgência desses novos tempos, além de ter consciência do que precisa ser feito há que se procurar realizar.

Palavras-chave: educação tecnológica;  paradigma emergente; crise; ensino, práticas  


INTRODUÇÃO

 

Estudar um fenômeno é construir um conjunto de visões. Aqui queremos ofertar várias das possíveis visões sobre a Educação Tecnológica e o Paradigma Emergente. Desde o século XVII a educação tem se baseado pelos paradigmas da ciência norteados pelo pensamento newtoniano cartesiano que instituiu a reprodução e a fragmentação do conhecimento. A prática educativa se baseava em escutar, ler, decorar e repetir. Os exercícios de memorização e repetição converteram-se na essência da ação docente. O foco da ação pedagógica era ensinar, mesmo que esse método não garantisse o aprender.

No final do século XX uma nova visão do mundo começa a entrepor diferentes ramos da ciência, levando a superação do paradigma conservador e a necessidade de romper com a fragmentação e a divisão do conhecimento.

Assim nasce o Paradigma Educacional Emergente, onde o ensino passa a ser compreendido não mais a partir de uma fragmentação, divisão ou dualidade, mas a partir da totalidade, onde o indivíduo faz parte da construção do conhecimento.

Nessa nova perspectiva, a educação tecnológica aumenta a exigência das instituições de ensino para que incutam reflexões frente a exigência de acompanhar o forte ritmo do desenvolvimento das tecnologias e à urgência de um novo paradigma, voltado para a inovação e a difusão tecnológicas.

A investigação e a pesquisa oportunizam antecipar que as práticas educacionais precisam propagar um processo pedagógico que considere problematizações que leve a criticidade, a reflexão, ao envolvimento, a criatividade e, principalmente, a transformação da realidade. A concepção desta pesquisa tem como pressuposto propor uma ação docente do professor mediante referências teóricas que caracterizem uma prática educativa com paradigmas inovadores.

Objetivamos analisar a influência dos paradigmas educacionais na educação tecnológica, refletir sobre a validade de optar por paradigmas inovadores no contexto da educação tecnológica e perceber a influência dos paradigmas inovadores na prática pedagógica.

Neste estudo faremos uso da Análise Textual Discursiva, uma metodologia de análise de textos e discursos, conforme nos explica Galiazzi; Moraes (2007):

Pode-se concebê-lo como construção de um quebra-cabeças em que o objeto do jogo e suas peças são criadas e ajustadas na medida em que a pesquisa avança. Numa perspectiva mais radicalmente qualitativa, talvez, uma metáfora melhor seja a criação de um mosaico, entendendo-se que o mesmo conjunto de unidades de sentido pode dar origem a uma diversidade de modos de organização do produto final. (GALIAZZI; MORAES, 2007, p. 78).

Nosso estudo não se assemelha a construção de um quebra-cabeça, cuja solução é conhecida. Equipara-se mais a um mosaico, cuja construção se dá no processo e da qual não se sabe o resultado.

Desta forma procuramos focalizar os temas Educação Tecnológica e o Paradigma Emergente[1] por meio de partes contidas em diversos textos de diferentes autores. Cada texto estabelece uma visão diferente do tema: “O desafio é exercitar um diálogo entre o todo e a parte, ainda que dentro dos limites impostos pela linguagem, especialmente na sua formalização em produções escritas” (GALIAZZI; MORAES, 2007, p. 49).

Assim sendo, acumulamos informações semelhantes de múltiplas vozes e, num esforço de interpretação buscamos sintetizá-las. Neste processo caminhamos mais próximos às incertezas, refletindo sobre o que se sabe e o que precisa ser aprendido, à análise do que precisa ser feito.

A intuição também se faz presente neste estudo, visto que ela integra a racionalidade de processos dedutivos e indutivos com outros aspectos de nossa capacidade de produzir sentidos sobre o que interpretamos.  Como bem nos diz Galiazzi; Moraes (2007):

[...]é importante a intuição do pesquisador, saber libertar-se de construções e teorias já existentes, sempre no sentido de construir novas formas de estruturar os elementos do fenômeno sob investigação. É nisto que reside a capacidade criativa do processo, essencialmente fundado na intuição (GALIZZI; MORAES, 2007 p. 65)

Durante o estudo enfatizamos a interpretação, a valorização do conhecimento do pesquisador, a escuta de diferentes vozes, o caráter histórico das informações e as novas compreensões. Um processo que exige esforço e envolvimento com idas e vindas em todos os momentos da análise. Afirma Galiazzi; Moraes (2007):

[...]uma das maiores dificuldades que o processo apresenta é a necessidade de conviver com a insegurança de um processo criativo, saber lidar com as incertezas da expectativa da emergência de novos modos de compreensão dos fenômenos investigados. Os resultados da auto-organização não têm tempo certo para se manifestarem, o que causa apreensão e angústia com as quais os pesquisadores precisam saber lidar. (GALIAZZI; MORAES, 2007, p. 78).

 

1.     EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

 

O tema Educação Tecnológica não é uma novidade deste século, tão pouco do anterior. Guardada as diferenças contextuais, o tema já era discutido por Marx e Engels (1866) no século XIX. O ensino tecnológico é colocado em dois textos, ainda contemporâneos, como o centro pedagógico da escola do futuro. Nas Instruções (1866), coloca-se em primeiro lugar a formação intelectual. Em O Capital Marx (1988) fala do Ensino Tecnológico como germe do ensino do futuro para todas as crianças (e não apenas para os filhos dos operários), como “único modo de produzir homens omnilaterais”. Não se trata apenas de interpretar o mundo, mas sim de transformá-lo.

Entender o que propriamente seja Educação Tecnológica é um pré-requisito para interpretação e colocação desse estudo.

Parafraseando a frase imortalizada por Fernando Pessoa: Navegar é preciso, Educação Tecnológica não é preciso. Navegar é preciso? Sim, navegar é uma atividade precisa, navegava-se com bússolas e astrolábios, hoje com satélites e GPS.  Educação Tecnológica não é precisa? Não. Sua definição é altamente (im)precisa.

Definir educação tecnológica é como definir o sabor da laranja, uma tarefa difícil, já que existem diferentes tipos com diferentes sabores, cada um deles com diferentes nuances.

A laranja tem sabor essencialmente cítrico, com nuances mais ou menos doces, mais ou menos azedas e ácidas, ou mais ou menos amargas. Mais ainda, o sabor da mesma laranja pode ser percebido de forma diferente por pessoas distintas, uma laranja que um adulto considere doce pode ser considerada como extremamente azeda por uma criança.

Da mesma forma, a educação tecnológica não possui um significado único, exclusivo e possui diferentes concepções.

Em uma visão restrita, a Educação Tecnológica pode ser definida como aquela voltada para a qualificação técnico-profissional, ou seja, pessoas para postos de trabalho. Esta concepção se restringe ao desempenho prático, ao mercado de trabalho e à educação para novas tecnologias, não apresentando preocupações relacionadas com o ser humano enquanto cidadão crítico e atuante frente à realidade econômico-social.

Um olhar mais aprofundado mostra que a Educação Tecnológica vai muito além, não se limita a aplicação de conhecimentos, mas através do entendimento das transformações cientificas e tecnológicas, desenvolve novos conhecimentos. De acordo com Bastos (1995):

O avanço do conhecimento, a incorporação progressiva de novos métodos e técnicas de trabalho e produção, além de um novo desenho do mercado de trabalho, trazem repercussões diretas sobre a formação e a capacitação de recursos humanos que atuam nos diversos setores da economia. (BASTOS, 1995, p. 10, APPUD CARVALHO, MELLO, SILVERIO, 1997)

O papel da educação tecnológica não é apenas especializar mão de obra, mas formar o cidadão consciente e com senso crítico e com uma visão macro da sociedade.

Glaucia Brito e Ivoneia de Purificação (2008) nos fornecem  uma descrição de como deve ser a Educação Tecnológica:

É aquela que prepara para a vida, para tomar decisões, para integrar conhecimento. Trata-se de uma educação que prepara o indivíduo para agir, não apenas reagir; planejar e não apenas executar.” (BRITO; PURIFICAÇÃO 2008, p. 111)

É uma educação voltada para a formação do cidadão e do profissional com espírito inventivo e com visão crítica das tecnologias. Não se designa apenas ao emprego de conhecimentos, mas vai além, preparando indivíduos para desenvolvê-los a partir da compreensão das transformações científicas e tecnológicas contemporâneas.

Uma definição concisa de Educação Tecnológica nos é apresentada por Manoel Maravalhas (2020):

A educação tecnológica integra o saber e o fazer, levando ao pensar e repensar para saber fazer. Propaga conhecimentos e técnicas, abrangendo várias modalidades de formação e capacitação. Se distingue por seu caráter global e unificado da formação técnico profissional, integrada a conscientização do trabalhador e da construção da cidadania. Contribui de forma contundente com o desenvolvimento econômico e social do país, propagando conhecimentos e técnicas, privilegiando as vertentes do trabalho, do conhecimento universalizado e da inovação tecnológica.

Se situa simultaneamente no âmbito da educação e qualificação, da ciência e tecnologia, do trabalho e produção, enquanto processos interdependentes na compreensão e construção do progresso social reproduzidos nas esferas do trabalho, da produção e da organização da sociedade.

É uma educação que não se distingue pela divisão de níveis e de graus de ensino. Assim, não se trata de uma educação à margem da educação fundamental, de segundo grau ou superior, e nem deverá ser uma educação ministrada em círculos fechados, porém um ensino e uma aprendizagem constantes, necessários à compreensão das bases técnicas e das inovações tecnológicas, enquanto elemento necessário para contribuir ao desenvolvimento econômico e social do país. (MARAVALHAS, 2020)

Face ao exposto, concluímos que se deve aplicar a educação tecnológica de modo que venha a contribuir para o exercício crítico na construção de saberes, considerando as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade.

Saindo do contexto do conceito de educação tecnológica, consideramos indispensável abordar o tema da utilização da tecnologia em sala de aula, uma vez que vêm se impondo a escola que ela se inter-relacione com esse universo tecnológico em prol do ensino. É inequívoco que sua utilização pode fazer com que a aprendizagem se torne mais expressiva e principalmente mais atraente, porém apenas equipar as escolas não garante uma utilização efetiva na metodologia educacional. A tecnologia incita docentes e gestores a missão de dominar não apenas as ferramentas tecnológicas como também as suas possibilidades de utilização pedagógica.

Nesta conjuntura, é primordial o investimento na formação continuada do professor, possibilitando que a comunidade escolar se aproprie efetivamente dos processos tecnológicos e desenvolva a capacidade de antecipar e controlar seus efeitos, gerando possibilidades de diversificação no processo de ensino e aprendizagem

Na contemporaneidade o domínio da tecnologia configura uma das principais formas de inserção social. Conforme afirma Marco Silva (2005): “se a escola não inclui a tecnologia na educação, está na contramão da história, alheia ao espírito do tempo, criminosamente produzindo exclusão social ou da cibercultura”. (SILVA, 2005, p. 63)

É inegável os benefícios da ciência e da tecnologia para a humanidade, assim como também é inquestionável a desigualdade no acesso aos seus benefícios e malefícios.

Martins (2003) completa dizendo que:

Todos os indivíduos (excluindo os que vivem em estado de pobreza extrema e/ou afastados de sociedades organizadas), conhecem e utilizam artefactos tecnológicos independentemente do conhecimento que possuem sobre o seu funcionamento ou processo de produção. Com efeito, os sistemas industriais de produção em série têm tornado acessíveis a mais pessoas, em melhores condições e a custos mais baixos, um número crescente de bens (materiais, objectos e serviços), potenciadores de melhor qualidade de vida, embora geradores de novos problemas (por exemplo, doenças profissionais) (MARTINS, 2003, p. 294)

É indiscutível o papel da tecnologia na melhora da qualidade de vida da sociedade, mas por outro lado não podemos esquecer os problemas gerados por ela e sua distribuição desigual.

Fourez (1995) quando pondera sobre o papel da divulgação científica ressalta que é necessário oferecer conhecimentos científicos suficientemente práticos para que as pessoas possam:

ponderar sobre as decisões com melhor conhecimento de causa [...] para ser um indivíduo autônomo e um cidadão participativo em uma sociedade altamente tecnicizada deve-se ser científica e tecnologicamente ‘alfabetizado (FOUREZ, 1995, p. 222).

A educação pode provocar uma mudança de paradigmas, gerando novas formas de consumir, desenvolvendo soluções econômicas, políticas e sociais, gerando consumidores racionais, seja capacitando o indivíduo a desenvolver tecnologias eficientes que utilizem menos e melhor os recursos naturais, seja conscientizando para que se consuma menos e melhor, retransformando os consumidores em pessoas. A educação tecnológica tem um papel importante na redução das desigualdades sociais, no desenvolvimento socioeconômico e no fortalecimento da cidadania.

A educação tecnológica é a aquela que vai levar o cidadão a refletir, por exemplo, sobre ao construir sua casa na montanha ou na praia construir ou não muros de vidro, para admirar os pássaros, que irão, em seu voo se chocar contra este mesmo muro. Vai levar os diretores dos Centros de Tratamento Intensivo, a refletirem sobre seus protocolos que proíbem o uso de celulares pelos visitantes e são tolerantes com outros dispositivos semelhantes, como notebooks e tablets, por exemplo.

Esta é a Educação Tecnológica a qual nos referimos neste estudo.

 

 

2.     O PARADIGMA EMERGENTE

 

Santos, B. (1995) discorre sobre um novo paradigma que surge lentamente, que ele denomina como sendo “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente” (SANTOS,B., 1995, p.37). O autor também enfatiza que:

[...] a natureza da revolução científica que atravessamos é estruturalmente diferente da que ocorreu no século XVI. Sendo uma revolução científica que ocorre numa seriedade ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente). (SANTOS,B., 1995, p.37).

Este novo paradigma surge fundamentado da interligação entre ciências naturais e ciências sociais, e se estrutura em quatro teses apresentadas por Santos, B. (1995) 

A primeira tese se denomina “todo conhecimento científico-natural é científico social” desta forma se  rompe a dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais. “A progressiva  fusão das ciências naturais e sociais posiciona a pessoa, como autor e sujeito do mundo, no centro do conhecimento” (SANTOS, B., 1995, p.44). O autor considera ainda que: “sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer sobre si uma nova ordem científica” (SANTOS, B., 1995, p.43).

A segunda tese para o paradigma que emerge se intitula “todo conhecimento é local e total”, contestando a fragmentação e disciplinarização do saber científico, predominante no paradigma moderno, tendo como horizonte a totalidade universa e indivisa. É local porque: “constitui-se em redor de temas que em dado momento são adotados por comunidades interpretativas concretas como projetos de vida locais” (SANTOS, B., 1995, p.47), ou seja, os objetos pesquisados pertencem a determinados grupos e, são investigadas de forma profunda e englobante. Ademais, esse conhecimento localizado é incitado a mover-se para outros ambientes onde possam ser reempregados.

O autor dispõe ainda que para o estudo de um objeto é necessário que se advenha de uma perspectiva multidisciplinar, isto é, o objeto que se intenta pesquisar precisa ser analisado através de perspectivas de âmbitos  metodológicos e teóricos heterogêneos:

A ciência pós-moderna não segue um estilo unidimensional, facilmente identificável; o seu estilo é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista. A tolerância discursiva é outro lado da pluralidade metodológica. Na fase de transição em nos encontramos são já visíveis fortes sinais deste processo de fusão de estilos, de interpretações entre cânones da escrita. (SANTOS, B, 1995, p. 49)

A terceira tese intitulada  “todo conhecimento é autoconhecimento” infere que  a ciência não descobre, cria e, este ato criativo é protagonizado pelos cientistas, que possui trajetórias de vida, valores e crenças próprios. O conhecimento científico conduz as práticas e ensina a viver, transformando-se na  chave do entendimento de um mundo que ao contrário de ser controlado deve ser contemplado.

Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos. (SANTOS, B., 1995, p. 53)

É primordial  cessar a dicotomia sujeito/objeto e adotar outro padrão desta relação na prática científica. O objeto passa a ser uma extensão do sujeito, resultando que, ao se realizar um estudo, se adquirida conhecimento diretamente sobre o objeto e indiretamente sobre o sujeito.

A última tese designada “Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum”  visa remover a ideia notabilizada pela  ciência moderna de que o  senso comum é superficial, ilusório e falso, objetivando uma reaproximação do conhecimento científico com o senso comum, conciliando valores da vida cotidiana ao conhecimento científico.

A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida (SANTOS, B., 1995, p.57).

Antes menosprezado, o senso comum passa a ser reconhecido pela ciência, possibilitando, mesclar a relação dos indivíduos com o mundo, visto que: “senso comum faz coincidir causa e intenção; [...]é prático e pragmático; [...]é transparente e evidente; [...]é indisciplinar e imetódico; [...]é retórico e metafórico; [...]não ensina, persuade” (SANTOS, B., 1995, p.56).

Essa aproximação do senso comum com a ciência pôde ser constatada no Carnaval de 2020, onde A escola de samba paulista Águia de Ouro, apostando no valor do saber, abordou a importância da inovação e da sabedoria. A escola trabalhou tanto o lado bom quanto o lado nocivo do saber, fazendo um panorama histórico sobre a evolução do homem e as grandes invenções, passando desde a pré-história até a modernidade ressaltando a esperança em tecnologias digitais e robóticas, pregando um futuro ecológico e próspero, apesar das dificuldades. Os riscos das novas tecnologias, como as guerras e a bomba atômica, também foram lembrados pela agremiação. Os carros seguiram uma cronologia imaginada, saindo da Idade da Pedra até um futuro, ainda utópico, com uma série de robôs ao serviço da humanidade. Falando sobre Educação, Ciência, Tecnologia e Sociedade a Águia de Ouro foi a campeã do carnaval 2020 de São Paulo, aclamada pelo senso comum.

Desta forma, o senso comum, viabilizará que as variadas formas de conhecimento atuem mutuamente, orientando as práticas do ser humano e dando sentido à vida, ou seja, o saber viver, uma vez que coincidem causa e intenção.

 

3.     AUTORES PÓS CONTEMPORÂNEOS

 

É inegável a contribuição de autores pós contemporâneos para as temáticas Educação Tecnológica e Paradigma Emergente. Assim sendo, neste capítulo estes temas serão analisados tendo como base o pensamento crítico dos autores Yuval Noah Harari, Kai Fu Lee, Maria Patricio Arruda, e Leda Portal. Esses autores indicam outras configurações dos temas com o suporte de suas pesquisas. Suas teorias procuram caminhos para lidar com as contradições que caracterizam este percurso rumo a um novo paradigma da ciência e da educação.

 

3.1.    Lições para o século XXI

 

Yuval Noah Harari, (2018) em seu livro 21 lições para o século 21, expõe os principais desafios que a humanidade enfrenta, e irá enfrentar neste século. Dentre eles, a questão do desenvolvimento das novas tecnologias e seus impactos na sociedade.

Harari (2018) fala sobre a ameaça que a ascensão da tecnologia trás para a perda de empregos e acredita que a principal barreira a ser enfrentada é o alto nível de especialização que os novos empregos irão exigir:

O livro não tenta cobrir todos os impactos das novas tecnologias. Embora a tecnologia encerre muitas e maravilhosas promessas, minha intenção é destacar as ameaças e os perigos que ela traz consigo. (HARARI, 2018, p. 15)

“Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder.” (HARARI, 2018, p. 11).  Com essa frase Harari, inicia a introdução de livro “21 lições para o século 21”. Harari (2018) apresenta uma visão do mundo onde poucos conseguem ter uma visão clara sobre o futuro da humanidade e quais são as questões essenciais e agendas urgentes. Harari (2018) explora o presente e nos transporta por uma viagem pelos assuntos cruciais da contemporaneidade. Seu novo livro trata sobre o desafio de manter o foco coletivo e individual em face a mudanças frequentes e desconcertantes.

A realidade é formada por muitas tramas que não podem ser compreendidas apenas pela trama, local, mas, por sua visão global. Harari (2018) tenta cobrir diferentes aspectos de nosso impasse global estimulando a reflexão, e ajudando os leitores a tomar parte em algumas das principais conversas do nosso tempo.

Harari (2018) traz um alerta importante para a educação. Neste mundo de mudanças rápidas e profundas, a escola não deveria preparar apenas para o Enem, mas para a vida. Ler e se informar, como hábito é a base para um pensamento autônomo, que não concorda com o que não compreende; que sabe expor suas ideias e argumentar. A escola que pretende preparar para o futuro deve desenvolver em seus alunos: “a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Ter a capacidade de se reinventar várias vezes”. (HARARI, 2018, p. 323)

Harari (2018) ressalta a importância da educação na compreensão da realidade assustadora que vivemos. O principal alerta para os educadores é para a conscientização sobre as novas formas de manipulação e vigilância que estão sendo possibilitadas pelas tecnologias de inteligência artificial e compartilhar e incentivar essa reflexão crítica os estudantes.

Em um mundo que muda a todo instante com novas oportunidades e desafios surgindo todos os dias, o autor pergunta: “Como podemos nos preparar e a nossos filhos para um mundo repleto de transformações sem precedentes e de incertezas tão radicais?” (HARARI, 2018, p. 319).

Mal podemos prever com exatidão como o mundo estará daqui a um ano, como podemos nos preparar para o mundo em 2050?

As dúvidas sobre o futuro da educação são muitas,  Harari (2018) afirma que: “Não podemos estar certos quanto às especificidades, mas a mudança em si é a única constante” (HARARI, 2018, p. 324), e que o padrão vigente na educação escolar está falido. Os algoritmos da inteligência artificial serão capazes de fazer tudo no futuro.

Harari (2018) critica o ensino de programação e idiomas para crianças,  pois, segundo ele:  “a Inteligência artificial pode programar softwares muito melhor que os humanos” (HARARI, 2018, p. 323) e aplicativos de tradução conduzirão bem uma conversa em qualquer idioma.   O autor sugere que a melhor habilidade que se pode ensinar é a reinvenção e cita que especialistas pedagógicos argumentam que a escola deveria ser transformada em ensinar “os quatro Cs” – pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade:

O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. Para poder acompanhar o mundo de 2050 você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos  – acima de tudo, vai precisar reinventar a você mesmo várias e várias vezes. (HARARI, 2018, p. 323)

De forma mais abrangente, no lugar de desenvolver habilidades técnicas que estarão ultrapassadas em poucos anos, Yuval Noah Harari propõe que os alunos aprendam habilidades que possam se aplicar a diferentes contextos, sendo capazes de lidar com as constantes mudanças que estão por vir.

Ao contrário de apenas receber informações, os alunos devem, principalmente, estar preparados para a mudança. Esse é o futuro da educação. 

Harari nos oferece uma visão que nos permite entrever o caminho que o mundo pode seguir no século 21, com a Inteligência Artificial mudando praticamente todos os aspectos da nossa vida e o futuro da educação quebrando paradigmas nas práticas educacionais vigentes. O modelo atual não consegue criar um paradigma pedagógico que seja capacitador do juízo crítico. Estamos diante de uma mudança sistemática nunca antes vista. Não sabemos mais o que ensinar para as nossas crianças pois a qualquer momento uma máquina pode fazer absolutamente qualquer coisa melhor que elas.

Se a mudança é a única constante, a educação é chave para o enfrentamento dos desafios que esse mundo nos impõe, ela deverá ser voltada para um aprendizado para além da mera técnica, ensinando-nos a pensar quando tudo mais em volta se transformar rapidamente.

 

3.2.   A inteligência Artificial e a Educação Tecnológica

 

inteligência artificial (IA) é uma área das ciências da computação, formada por um conjunto de algoritmos que procura simular o processo humano de aprendizado. Está presente em diversas áreas, como no mercado financeiro, no marketing, na comunicação, na medicina e também na área pedagógica.

Uma abordagem inovadora para a inteligência artificial, o aprendizado profundo[2], pode fazer um trabalho melhor do que os humanos na identificação de rostos, no reconhecimento de discurso e na concessão de empréstimos.

Durante décadas, a revolução da inteligência artificial sempre parecia estar distante. Porém, com o desenvolvimento do aprendizado profundo nos últimos anos, essa revolução finalmente chegou, e irá inaugurar uma era de forte aumento da produtividade, mas também de perturbações generalizadas na sociedade com grandes efeitos sociopsicológicos nas pessoas, à medida que a IA tomar conta dos empregos humanos em todas as indústrias. Lee (2019) nos alerta que:

A ameaça aos empregos está chegando muito mais depressa do que a maioria dos especialistas previa, e ela não discriminará pelo nível de especialização dos cargos, ao contrário, atingirá tanto os altamente treinados quanto aqueles com baixa escolaridade. [...] Essa mesma tecnologia destruidora de empregos chegará em breve a uma fábrica e a um escritório perto de você. (LEE, 2019, p,18)

Neste capítulo, com o auxílio de Kai Fu Lee, procuramos pistas de como a integração da tecnologia na educação pode beneficiar o sistema de ensino.

Em seu livro “Inteligência Artificial – como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos”, Lee (2019)  conta como o diagnóstico de um câncer em estágio avançado fez com que ele repensasse sua relação com o trabalho, seu legado e os próprios rumos da inteligência artificial, se perguntando sobre como a tecnologia poderia ser utilizada para resolver alguns dos maiores problemas que assolam a sociedade neste início de milênio, como a miséria, a desigualdade e a dificuldade de acesso à educação.

No livro, fica claro que compreender inteligência artificial é obrigatório para pensar a educação do futuro. É por meio da educação que criaremos o antídoto para os novos desafios.

Por “inteligência artificial” Lee entende algo muito específico: a capacidade de máquinas processarem grandes quantidades de dados para resolver problemas específicos.

Kai-Fu Lee foi responsável por criar a equipe da Sirí na Apple, depois fez trabalhos para Microsoft  em Inteligência Artificial e a seguir liderou a operação do Google na China. Lee tem uma visão diferente sobre IA que Harari e o considera apenas um estudioso, mas não autoridade que pode opinar pois não entende da parte prática desses desenvolvimentos. Lee acredita sim que as máquinas poderão fazer praticamente todas as nossas tarefas, o que acarretará problemas sérios de desemprego, mas ele acha que robôs jamais terão o nível de bom senso de uma criança ou nem sequer chegar perto do Amor. O que ele considera o grande diferencial humano, que nenhuma máquina conseguirá reproduzir.

Nos debruçamos no relato de Kai Fu Lee focando nossas lentes em sua análise e conselhos para a Educação Tecnológica. No capítulo cinco, Lee dedica uma sessão “Uma educação alimentada por OMO” (LEE, 2019, p. 149) para tratar do tema da educação. O termo OMO – Online Merge Offline - é utilizado pelo autor para definir ambientes onde o online se confunde com o offline.

Lee (2019) justifica o modelo atual de educação que ainda segue o modelo  fabril do século XIX, onde os alunos são forçados a aprender na mesma velocidade, da mesma maneira, no mesmo lugar e ao mesmo tempo onde: “as escolas adotam uma abordagem de ‘linha de montagem’, passando as crianças de uma série para a outra a cada ano, em grande parte independentemente de terem absorvido ou não o que foi ensinado.” (LEE, 2019, p. 149),  pelas limitações de recursos de ensino que balizam o tempo e a atenção do professor para ensinar, monitorar e avaliar os alunos. Mas esclarece que:  “As habilidades de percepção, reconhecimento e recomendação da IA podem adaptar o processo de aprendizado a cada aluno e liberar os professores para mais tempo de instrução individual” contribuindo para extinguir essas limitações.

Para Lee as práticas educativas com tecnologia de IA podem ocorrer tanto no ensino em sala de aula, lição de casa e exercícios como em aulas personalizadas, provas e notas. Nestes contextos pode-se construir o alicerce da educação baseada em IA, que é o perfil individualizado de cada aluno. Lee (2019) completa afirmando que:

Esse perfil contém uma contabilidade detalhada de tudo que afeta o processo de aprendizado do aluno, como quais conceitos eles já entenderam, em quais têm dificuldades, como reagem a diferentes métodos de ensino, se prestam atenção durante a aula, com que rapidez respondem às perguntas, e quais incentivos os motivam. (LEE, 2019, p. 149).

Lee sugere que no ensino presencial as escolas adotem um modelo de professor duplo, combinando uma palestra remota de um educador de alto nível com a atenção mais pessoal do professor em sala da aula. As palestras podem ser transmitidas simultaneamente para várias salas de aula e o professor remoto faz perguntas que os alunos devem responder por dispositivos portáteis em tempo real, demonstrando se compreendem os conceitos. Uma câmera pode usar o reconhecimento facial e análise de postura para avaliar o nível de participação, atenção e compreensão dos alunos, se baseando em gestos, como assentir, balançar a cabeça e expressões de perplexidade. Esses dados alimentam o perfil do estudante em tempo real com uma imagem do que os alunos sabem e em que parte precisam de ajuda extra.

O autor complementa afirmando que a Educação com IA não se limita a sala de aula. O perfil do estudante pode ser combinado com algoritmos que geram perguntas e criam tarefas de casa personalizadas: “Enquanto as crianças espertas terão que completar problemas de nível mais alto que as desafiam, os alunos que ainda precisam entender o material recebem perguntas mais fundamentais e, talvez, exercícios extras.” LEE, 2019, p. 150). Durante todo o processo o desempenho, cada aluno alimenta seu perfil ajustando os problemas subsequentes para reforçar a compreensão.

O autor sugere também que programas de reconhecimento de fala sejam usados no ensino de idiomas: “Os algoritmos de reconhecimento de fala, de alto desempenho, podem ser treinados para avaliar a pronúncia dos alunos, ajudando-os a melhorar a entonação e o sotaque, sem a necessidade de um falante nativo” (LEE, 2019, p. 150).

Lee (2019) salienta que essas ferramentas também podem ser usadas para aliviar o trabalho do professor nas tarefas de avaliação e correção de conceitos básicos, liberando-os para que passem mais tempo com os alunos discutindo conceitos de níveis mais altos.

O perfil do aluno traçado com tecnologia IA, também pode auxiliar os alunos que estão ficando para trás, notificando os pais sobre a situação de seus filhos com um relato preciso de quais conceitos o aluno está tendo dificuldade e os pais podem usar essas informações para conseguir um tutor remoto. A tutoria remota já é uma realidade, mas com o auxílio da IA, essas plataformas podem coletar dados sobre o desenvolvimento dos alunos. Esses dados alimentam continuamente o perfil dos estudantes, ajudando as plataformas a filtrar os professores adequados para cada aluno.

Boa parte das ferramentas citadas aqui já existem e podem ser implementadas nas escolas, constituindo um novo paradigma de educação com tecnologia IA, que unirá os mundos on-line e off-line e criar uma experiência de aprendizagem adaptada às necessidades e habilidades de cada aluno. Grande parte do trabalho físico do professor já pode ser feito por máquinas, mas a interação social não pode ser automatizada. Professores estabelecem relações humanas no processo ensino-aprendizagem e precisam entender que cada aluno, dentro de suas particularidades e especificidades, aprende de formas diferentes.

Kai Fu Lee (2019) prevê um cenário onde a IA irá extinguir alguns empregos e o trabalhador terá que se reciclar e desenvolver novas aptidões ao longo da vida. Neste cenário as plataformas de educação online darão aos trabalhadores as ferramentas que precisam para se tornarem aprendizes por toda a vida, atualizando constantemente suas habilidades e mudando para novas profissões que ainda não estão sujeitas à automatização, Lee alerta que essa abordagem não é suficiente para resolver o problema: “À medida que a IA conquistar novas profissões, os trabalhadores serão forçados a mudar de ocupação a cada poucos anos, tentando adquirir depressa habilidades que os outros levaram uma vida inteira para conseguir.” (LEE, 2019, p. 241).

Lee (2019) acredita que a longo prazo a educação é a melhor solução para os problemas de emprego relacionados a IA. Para ele a Educação seria um dos pilares de um novo contrato social que valorizasse e recompensasse as atividades socialmente benéficas: “a educação pode variar de treinamento profissional para os empregos da era da IA até aulas que poderiam transformar um hobby em uma carreira” (LEE, 2019, p.260)

A ideia não é substituir os professores, mas trabalhar em conjunto, o que pode resolver muitos dos problemas atualmente enfrentados pelo sistema educacional. Ao invés de ser extinto, o número de professores pode aumentar consideravelmente  com cada professor encarregado de um número menor de alunos que poderá ensinar em conjunto com programas de educação em IA.

Ninguém sozinho terá todas as respostas para a emaranhada teia de questões que enfrentamos, teremos que recorrer a diversas fontes de sabedoria. Essa sabedoria incluirá reformas pragmáticas em nossos sistemas educacionais, nuances sutis nos valores culturais e profundas mudanças na forma como concebemos o desenvolvimento, a privacidade e a governança. Neste contexto, Lee 2019) afirma que:

Ao renovar nossos sistemas educacionais, podemos aprender muito com a adoção da educação inteligente e talentosa da Coreia do Sul. Esses programas buscam identificar e perceber o potencial das principais mentes técnicas do país, uma abordagem adequada para criar a prosperidade material que pode ser amplamente compartilhada por toda a sociedade. Escolas no mundo todo também podem tirar lições de experiências norte-americanas em educação social e emocional, promovendo habilidades que serão inestimáveis para a força de trabalho centrada no ser humano do futuro. (LEE, 2019, p. 270)

A nova era da educação já é uma realidade em diversas instituições ao redor do mundo. Impulsionadas pela tecnologia, estão adotando modelos disruptivos de aprendizagem – cujos pilares são a personalização do ensino, estímulo à experimentação dos alunos e a combinação entre a sala de aula e o ambiente online.

O novo modelo educacional deve priorizar o autodesenvolvimento do aluno e a construção de valores, conhecimentos e habilidades a partir da vivência de diferentes atividades. Um ponto importante é associar as práticas a projetos interdisciplinares, que possam não apenas desenvolver as competências socioemocionais dos alunos, mas também oferecer melhorias para a sociedade. Além disso, as ferramentas devem estimular a capacidade dos discentes para lidar com novas tecnologias e inovações. Isso, aliás, não é um desafio restrito aos estudantes. O papel do professor neste processo de integração de uma tecnologia digital no sistema educacional é fundamental. É necessário que esse professor conheça bem a plataforma, que saiba como extrair os dados de que necessita para seu planejamento e avaliação e, acima de tudo, que saiba como intervir no processo de ensino-aprendizagem a partir dessa análise. É necessário ressignificar a formação de professores, para que sejamos coerentes com o discurso e a prática.

As dúvidas são muitas e com bem disse Yuval Harari: “Não podemos estar certos quanto às especificidades, mas a mudança em si é a única constante.” (HARARI, 2018, p.324). Vale ressaltar que a aprendizagem não se resume somente aos conhecimentos cognitivos, mas também às habilidades e competências socioemocionais, cada vez mais essenciais para a formação do cidadão pós contemporâneo. Esse aprendizado se constrói na relação com o outro e, portanto, é genuinamente humano. E a escola segue sendo um espaço privilegiado para que esse aprendizado aconteça. A IA pode nos ajudar em algumas coisas, mas não em tudo. Neste novo cenário onde as tecnologias emergentes como a inteligência artificial se integram com a educação, o papel do educador é ainda mais fundamental.

 

 

3.3.    Mudanças paradigmáticas no modo de educar

 

Arruda e Portal (2012), manifestam-se junto com Harari e Lee de que “a mudança em si é a única constante” (HARARI, 2018, p. 324) e que “a educação é a melhor solução de longo prazo”. (LEE, 2019). Para as autoras:  “os educadores só têm uma alternativa: mudar. Insistir no paradigma tradicional de ensino pode representar um risco muito grande para um mundo que clama por criatividade e inovação.” (ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 204).

As autoras vão além, enfatizando que as mudanças necessárias passam, obrigatoriamente por um processo de revisitação da formação de educadores, para elas: “Discutir o futuro da formação de educadores ganha força na reforma do pensamento“ (ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 200).

Acrescentam que a renovação necessária no processo de formação de professores passa pelo estabelecimento de pontes entre as diferentes disciplinas: Para Arruda e Portal (2012):

Se as universidades pretendem ser agentes válidos na renovação do processo de formação de professores, têm, primeiramente, que reconhecer a emergência de um novo tipo de conhecimento - o conhecimento transdisciplinar - complementar ao conhecimento disciplinar tradicional (ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 201)

A educação transdisciplinar rompe fronteiras na busca por novos saberes, por novos conhecimentos e busca compreender a multiplicidade de paradigmas que constituem o universo educacional, promovendo um repensar contínuo.

A educação transdisciplinar propõe um processo de formação ampliada porque ultrapassa as fronteiras disciplinares. Essa abordagem aproxima diversas disciplinas e áreas do conhecimento e se utiliza de metodologias que favoreçam a integração de todos os especialistas, em função de seus conhecimentos e saberes (MORIN, 2003, appud ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 203)

Parafraseando a frase imortalizada por Camões, as pesquisadoras consideram que educar não é preciso, para elas: “as práticas pedagógicas são complexas e imprecisas impõe-se a necessidade de um pensamento problematizante capaz de incorporar mudanças paradigmáticas no modo de educar” (ARRUDA; PORTAL, 2012,  p. 200) e completam afirmando que: “A mudança do paradigma educacional depende de educadores maduros, curiosos e abertos, que saibam refletir e dialogar.” (ARRUDA; PORTAL, 2012,  p. 206).

Entendo que, de uma forma geral, os docentes (uns mais, outros menos) percebem as mudanças que estão ocorrendo na educação. De acordo com Arruda e Portal 2012):

A educação é um fato eminentemente histórico, suas modificações vão aparecendo na proporção em que os modelos adotados se revelam inadequados para satisfazer as necessidades emergentes. Esse é o ponto de partida para a discussão sobre a necessidade de renovação da prática pedagógica do docente da educação superior frente aos desafios propostos por uma sociedade em vertiginosa mudança. (ARRUDA;PORTAL, 2012, p. 200).

Ainda de acordo com Arruda e Portal (2012), o paradigma educacional vigente que: “promove a aprendizagem ao invés do ensino” está em processo de superação. “Esta nova orientação coloca o controle do processo de aprendizagem nas mãos de quem aprende [...] a educação não é somente a transferência de conhecimento, mas um processo de construção em parceria”. (ARRUDA;PORTAL, 2012, p. 206).

Ratificamos que, para nós, a educação tecnológica a qual nos referimos é aquela que pode provocar uma mudança de paradigmas, sempre gerando mudanças que nos transformam. Como já dissemos, consideramos que o processo de aprendizagem só é legítimo quando além de efetuar uma mudança naquele que aprende, simultaneamente provoca uma mudança naquele que ensina, pois é desta forma que a escola vem se transformando.

Acreditamos ser consenso a  necessidade urgente de refletir as práticas de educação, que, apesar dos discursos contrários, na prática ainda estão vigentes. Mais do que nunca a educação precisa buscar novas formas e alternativas de modo que os indivíduos possam fazer do processo de aprendizagem a sua própria vida. A superação das dificuldades atuais e das que estão por vir, passa sem dúvida pela educação, que tem um papel importantíssimo de abrir o leque de possibilidades para o educando. Segundo Arruda e Portal (2012):

Nessa primeira década do século XXI, as discussões em torno da educação se encaminham para um ponto que parece convergente: o professor precisa ser um educador e não mais um instrutor, transmissor conteudista de conhecimento. Outro ponto de destaque é a necessidade desse educador assumir uma posição não só de ensinante, mas também de aprendente, pois vivemos um tempo que nos desafia a ensinar e a aprender ao mesmo tempo. Entretanto, muitos professores seguem perpetuando o paradigma da “educação bancária, [...] e, nesse caso, não há conhecimento, os educandos decoram e repetem mecanicamente algo pronto, de forma vertical e antidialógica, reforçando um paradigma que educa para a passividade e se opõe à educação para a autonomia.(ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 199).

Toda esta reflexão se estende sobre a figura do professor que não deve mais ser um simples transmissor de conhecimentos, mas um orientador de aprendizagem que além de mostrar os caminhos também orienta o aluno para que desenvolva um olhar crítico que lhe permita reconhecer as trilhas que conduzem as verdadeiras fontes de informação e conhecimento. O professor continua sendo insubstituível, porém, é necessário que esteja atento as mudanças e assuma uma posição de agente ativo e participativo na construção desse novo mundo, ajudando a formar cidadãos conscientes e capazes de gerir a sua própria vida na sociedade.

Este início de século exige uma mudança de atitude, o professor precisa ocupar o seu lugar de destaque, estar motivado e ser um motivador. vivemos num período de transição, onde o professor trabalha ainda com uma realidade do século passado, e enfrenta muitas dificuldades diante das transformações sociais, ensinar é um desafio, as questões educacionais são cada vez mais complexas. Conforme Arruda e Portal (2012):

Já não bastam conteúdos acumulados ao longo de anos de transmissão de conhecimentos. Carecemos aprender a organizar e articular as informações que se encontram disponíveis num universo de informações rápidas e fluidas, possibilitado pela Internet, e repensar a educação [...] que, por sua complexidade, requer a construção de um pensamento novo, capaz de articular e juntar o que antes se pensava em separado (ARRUDA; PORTAL, 2012, p. 200).

Neste sentido, ao buscar a inteligibilidade de novas práticas educativas que vá ao encontro das novas tecnologias, as pesquisadoras nos levam a repensar, de forma crítica e reflexivas as práticas educacionais como possibilidade de reforma do pensamento e da prática pedagógica a partir do confronto e da reelaboração dos saberes e fazeres docente.

Entendemos que somente quando nos dispomos a refletir sobra a realidade e questionar as verdades absolutas é que se estabelece transição paradigmática que dará início a um processo de desvendamento de novas possibilidades.

 

 

4.     CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao concluirmos nosso mosaico,  construído a partir de diversas vozes  que discursam sobre a Educação Tecnológica e o Paradigma Emergente,  afastamos nosso olhar para observá-lo com um todo. Ouvir diferentes vozes permitiu que diferentes valores fossem incorporados ao foco deste trabalho. Pensar em uma educação capaz de preparar indivíduos capacitados a interagirem de diversas formas em uma sociedade tecnologicamente desenvolvida tem sido alvo de muitas discussões com características bastante variadas. O fato de não haver uma congruência de opiniões sobre o que venha a ser a Educação Tecnológica no Paradigma Emergente pode levar a visões errôneas e propostas limitadas para a efetivação de uma educação consistente.

Estamos em um período de crise e transição, com uma sucessão de mudanças em todos os campos da sociedade, que acontecem de forma acelerada e categórica. Ficou evidente a urgência de superar as práticas pedagógicas voltadas ao reducionismo e a falta de reflexão do indivíduo e utilizar novas abordagens que rompam com a fragmentação e a divisão do conhecimento.

Na perspectiva de uma Educação Tecnológica vinculada ao Paradigma Emergente, uma educação comprometida com a formação humana, é necessário tencionar uma educação que alicerce a formação de indivíduos que sejam capazes de romper com os limites postos pelas rotinas e disciplinas escolares. Uma educação que constantemente  se atualize e reveja seus conceitos e formas de atuação, de forma que possa verdadeiramente garantir aos educandos uma formação completa para a leitura do mundo, e nele atuar em função das necessidades coletivas da humanidade, e ao mesmo tempo cuidar de sua preservação, face às necessidades dos demais seres humanos e das gerações futuras, possibilitando a formação de cidadãos capazes de restabelecer a ligação entre o todo e as partes.

A educação do futuro, que já se faz presente, deve ter como norte a formação humana integral, desenvolvendo o processo de ensino-aprendizagem de forma que os conceitos sejam apreendidos como sistema de relações de uma totalidade concreta que se pretende explicar e compreender.

O papel da educação para o desenvolvimento necessário da consciência, é transformar os indivíduos simultaneamente em educadores e educandos, superando a dicotomia que divide a sociedade em educadores superiores e os educandos com uma posição de subordinação aqueles.

                                                                                                           


 

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[1] Esse paradigma propõe que o universo seja visto como um todo, um sistema integrado, uma concepção de teia e de relações que têm como unidade central a reaproximação das partes, a religação dos saberes. (MORIN, 2001, p. 78)

[2] É uma forma de inteligência artificial, dedicada ao desenvolvimento de algoritmos e técnicas que permitam ao computador aperfeiçoar seu desempenho em alguma tarefa. É o termo utilizado para descrever sistemas de redes neurais artificiais que imitam o funcionamento do cérebro humano para aprender. Esses sistemas podem aprender com pouca intervenção porque são capazes de descobrir por si mesmos quais os dados mais importantes em cada interação. 

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